A Estrangeira

16-05-2016 22:29
Aquela era uma terça-feira qualquer, daquelas de meio de ano, sem qualquer festividade, sem qualquer motivo pra comemorar. Eu, como sempre, tentando fugir do meu tédio pós-trabalho fui a procura de um estabelecimento que me fornecesse um etílico qualquer, um MPB ou Rock e que não
fosse muito frequentado. É bem verdade que a terça-feira contribui para que eu achasse esse recanto paradisíaco.
Sentei-me a esquerda do balcão, pedi meu ansiolítico regular e passei a viajar nas boas melodias que agradavam minha alma solitária. Aquelas melodias deixaram-me confortavelmente leve, mas logo as letras de música levaram-me a uma viagem no tempo.
De certa maneira aquelas vozes impecáveis escreviam na minha memória poesias a uma estrangeira senhorita, que outrora me afogou em beijos, me domou em carícias, me tomou em libido, me cravou o peito com um olhar tão nosso e me encantou com um timbre de mais bela e florida voz.
Jurei ser poeta só por ela, cantar as mais belas canções de sua banda preferida, chegar algum dia aos pés de sua inteligência, guardar pra sempre o sabor de sua pele. Tudo isso em segredo.
Escrevi e enviei-lhe uma de minhas poesias, mas fez sucesso com outras pessoas que me foram fogo de palha. Depois lhe escrevi uma carta, e nessa explodi todo meu eu lírico, e que depois de escancarar todo meu coração, me encolhi em timidez e perdi a voz.

Ela me visita em sonho sempre, mas sempre vai embora. Eu acordo e tento me esquecer de tudo, amar outras, arder em desejo, ou mesmo ficar bem sozinho. Mas as melodias daquela estrangeira, são melodias que me tornam estrangeiro de mim e ela é o meu fim.
 
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